“Os povos que não se conhecem devem ter pressa em se conhecer, como aqueles que vão lutar juntos. Os que se enfrentam como irmãos ciumentos, (…) devem dar as mãos para que sejam um só. (…) as árvores devem formar fileiras, para que não passe o gigante das sete léguas! É a hora da avaliação e da marcha unida, e deveremos marchar bem unidos, como a prata nas raízes dos Andes.” (José Martí, Nuestra América, 1891)
Políticos, escritores, intelectuais e movimentos sociais vem nos dizendo há mais de um século que os países “do Rio Bravo ao estreito de Magalhães” deveriam se unir para superarem os seus problemas históricos. Uma união, portanto, pautada não apenas das correntes de comércio já existentes, mas que deveria ir além da liberalização comercial para alcançar a área da produção. Uma associação que dependeria, segundo estes, essencialmente, vale salientar, do interesse dos agentes econômicos em escala sub-regional, iniciando, a exemplo do MERCOSUL, como um somatório de iniciativas semelhantes à empreendida pelo Brasil e Argentina, ao amparo, porém, e indo além dos esquemas previstos na Aladi. Tal integração estaria assentada nas semelhanças e identidades que esses países compartilhavam. Somente agindo de forma solidária e coordenada, a América do Sul e, depois, toda a América Latina conseguiria reunir forças para vencer as disputas inter-regionais, as ambições desmesuradas, a presença exclusiva, a influência preponderante nas nações vizinhas, o obstrucionismo diplomático, o neo colonialismo, o imperialismo, hegemonias e toda a dependência resultante desses processos que submeteram esta região desde seus primórdios.
Por outro lado para entendermos a dinâmica da história das relações internacionais latino-americanas, devemos observá-la desde várias perspectivas, que incluam outros aspectos além do econômico, e, principalmente, do político. Cabe incursionar nas sendas da esfera cultural, no campo epistêmico da geografia e aparato gnosiológico jurídico. É vital, nesse sentido, para apreender a configuração das relações externas na região estudar as variáveis das políticas internas de cada país para descobrir o que levou à adoção de certas decisões no âmbito internacional. Esta orientação supõe dar protagonismo, reconhecendo o poder de iniciativa e decisão das elites nacionais, o que não é feito nas análises estruturalistas, que veem as ditas elites como simples marionetes dos interesses externos dominantes em cada período. A consideração do marco político mundial, portanto, é fundamental para resolver os conflitos internacionais, elaborar estratégias conjuntas ou formar alianças inter-regionais na América Latina. Mas é fundamental a análise sobre a evolução histórica nacional de cada país,assim como a origem econômico-socal, política, cultural, geográfica, bem como as suas assimetrias regulatórias e estruturais. Sem esquecer, por outro, a extração social, econômica e política dos governantes de cada período, o maior peso de pressão dos grupos internos, os conflitos e múltiplas contradições que de ponta a ponta os atravessaram. Isso não quer dizer que a influência das potências hegemônicas não tenha relevância. Teve-a, mas em consonância e, em estreita combinação, com os acontecimentos locais.
A definição e a construção das nações latino-americanas caminharam desde o século XIX junto com a definição e a construção de identidades. No começo, ditas identidades foram regionais, mas no percurso de sua história foram se re-definindo e re-construindo em identidades nacionais. A questão identitária jogou um papel decisivo na hora da resolução dos conflitos externos, sendo a política externa de cada país o âmbito no qual se resolviam as divergências e os conflitos internos. Em alguns casos, a resolução destes conflitos se produziu contrariando os interesses das potências hegemônicas em outros gerando ressentimentos, desconfianças, demolindo as possibilidades da cooperação e da integração.
Na atualidade, após duzentos anos de independência e paradigmas de política externa denominados liberal-conservador agro exportador, desenvolvimentista, e neoliberal, face ao MERCOSUL, o mais bem concebido de todos os mecanismos de integração e a UNASUL, desponta a idéia de América do Sul, região de convergência política de integração econômica, social, política e cultural. Sua consolidação nos coloca diante dos dilemas da inserção no mundo em uma posição de menor vulnerabilidade, que enseje a superação de crises de relacionamento entre os países que compõem o bloco. O desafio que os países da América Latina tem, diante dos processos de integração, é administrar um destino comum, que tenha como meta a implementação de condições favoráveis com vista a alcançar fatores concretos de progresso e melhorias substantivas das condições de vida para os povos das nações do subcontinente.
Embora, tenhamos assistido a diversas tentativas frustradas de integração, como o projeto unionista de Simón Bolívar e os posteriores Congressos Pan Americanos (com preponderância norte-americana), o ABC, a Operação Pan Americana e a ALALC e a CAN, como já foi mencionado acima, existem processos em curso que podem levar à concretização desses antigos e novos ideais. E, ainda hoje, não faltam pensadores latinos americanos que renovem essa perspectiva e essa intenção.
A Conferência, que será realizada de 18 a 20 de outubro de 2011 pelos cursos de História e Relações Internacionais da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP, Campus – Franca tem o intuito de analisar e debater principalmente as idéias que moveram e movem atualmente nossos políticos, artistas e sociedades em direção à construção de uma América do Sul e quiçá Latina unida e assentada em um desenvolvimento sustentável, solidário e autônomo.